Foto: Nuno Vasconcelos

Manifestações Clínicas da Apneia Obstrutiva do Sono

Foto: Nuno Vasconcelos

Os doentes com SAOS apresentam muitas vezes sintomatologia que sugere facilmente o diagnóstico. Existem no entanto casos em que a queixas são subestimadas pelos doentes , tornado o seu recolhecimento clínico mais difícil. Não é raro os doentes afectados por esta doença não acreditarem que enquanto dormem possam ter paragens da respiração e ressonar muito alto.

De uma forma esquemática na SAOS existem sintomas que surgem durante a noite e outros que aparecem no período diurno.

Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono : Manifestações Clínicas

A – Sintomas Nocturnos ( durante o sono )             

  • Ressonar
  • Paragens respiratórias
  • Acordares frequentes
  • Nictúria
  • Sono agitado
  • Crises de sufocação nocturnas
  • Sudação nocturna
  • Palpitações

B – Sintomas Diurnos

  • Hipersonolência diurna
  • Cansaço diário
  • Secura de boca
  • cefaleias ao acordar
  • Perturbações sexuais
  • Alterações cognitivas e psíquicas
  • Diminuição da acuidade auditiva

O ressonar é um sintoma constante e  está em geral presente durante muitos anos antes da primeira consulta médica . Caracteriza-se  habitualmente por um ressonar intenso ,com uma frequência elevada e intervalo pelas perturbações respiratórias  . É  na maioria das vezes referido pela companheira ( o ) e constitui muitas vezes o motivo principal de recorrência a uma consulta de sono, devido sobretudo ao agravamento da sua intensidade que impossibilita que a( o ) companheira( o ) consiga dormir. O ressonar é um ruído produzido pelas vibrações dos tecidos moles da faringe, sobretudo do palato e das paredes laterais da oro-faringe, secundários à passagem do ar por uma via aérea estreita.

O ressonar intenso mantido durante muitos anos pode ser responsável pela diminuição da acuidade auditiva.

As paragens respiratórias correspondem às apneias e ou hipopneias  e  surgem ao longo do sono em número e duração variável.  São muitas vezes observadas pela companheira / o e são motivo de grande preocupação, constituindo muitas vezes o primeiro sinal de alerta da existência da doença e  obrigando o doente a recorrer a uma consulta de sono

Na grande maioria das vezes o doente não têm consciência da existência destas pausas respiratórias durante o sono . Alguns doentes podem no entanto  queixar-se de acordares ao longo da noite ou de uma sensação angustiante de sufocação nocturna , que desapareçe após o acordar.

O sono agitado durante a noite, relaciona-se muitas vezes com os episódios de perturbações respiratórias  e correspondem ao esforço ventilatório necessário à recuperação da respiração e que se traduz muitas vezes por movimentos corporais ou localizados aos membros , podendo acompanhar-se de sudação . Esta actividade motora anormal está associada aos múltiplos episódios de despertar durante a noite e que se traduzem frequentemente como microdespertares nocturnos e ou acordares referidos   pelo doente. 

A nictúria é um sintoma frequente , sendo responsável pelo aparecimento de vários episódios de despertar durante a noite.

Estão descritos casos clínicos em que os doentes se levantam da cama de hora a hora para urinar. Com muito menor frequencia podem existir situações clínicas de enurese nocturna.  Quando na realização da história Clínica é frequente os doentes atribuirem a causa da nictúria a problemas de prostatismo, que na realidade são resultantes da apneia do sono .

Um dos mecanismos responsáveis pelo aparecimento da nictúria é o aumento da secreção do péptido auricular natríurético, secundário à dilatação da aurícula direita durante os episódios de apneias . O tratamento com ventilação não invasiva  normaliza as concentrações do péptido natriurético atrial e reverte a nictúria.

A  sonolência diurna excessiva é o principal sintoma diurno sendo consequência de um sono nocturno desorganizado: acordares frequentes, microdespertares , diminuição do sono profundo e / ou perda da ciclicidade do sono . O grau de sonolência que estes doentes apresentam é variável podendo apresentar-se desde uma fadiga crónica diária até à dificuldade em manter-se acordado durante o dia.

A sonolência pode surgir em situações de inactividade ( ex: sentado numa sala de espera, nos transportes públicos, durante a leitura , a ver televisão etc ) ou acontecer em plena actividade. Nestes casos os doentes podem adormecer durante as refeições, a conduzir o automóvel, a conversar, na posição de pé etc.  Nos casos em que a sonolência é significativa existem geralmente repercussões importantes na actividade profissional e social do doente. Os doentes com SAOS apresentam um elevado risco de acidentes de viacção , assim como durante a suas actividades laborais

As cefaleias são sobretudo  referidas  ao acordar e tendem a melhorar ou desaparecer ao longo do dia. O seu aparecimento deve-se à vasodilatação cerebral induzida pela hipercápnia, à hipoxémia  e/ ou aumento da hipertensão arterial sistémica durante os episódios de perturbação respiratoria .

As cefaleias podem no entanto ser muito intensas, mantendo-se ao longo do dia e  confundirem-se com crises de enxaqueca, sendo refractárias a terapêutica analgésica

As alterações cognitivas e / ou psíquicas podem constituir as principais manifestações clínicas e resultam habitualmente da presença diária e durante muitos anos , de um sono nocturno  não reparador . Não é raro observar durante uma consulta de sono a presença alterações no comportamento destes doente que vão desde o desinteresse pelas suas actividades diárias até a situações de agressividade e grande irritabilidade, e que podem ser responsáveis por uma dificuldade  de relacionamento não só familiar como também social. A perda de memória , a dificuldade de concentração no trabalho são também frequentes e contribuem muitas vezes para a  diminuição do rendimento laboral.

Em alguns casos as alterações cognitivas podem levar ao  aparecimento de quadros psiquiátricos e o tratamento com fármacos ansiolíticos, hipnóticos e/ ou antidepressivos ou outros , constituem factores de risco importantes para o agravamento da SAOS.

As pertubações sexuais como a diminuição da líbido e a impotência sexual são também frequentes e em muitas situações não são reconhecidas pelo doente como fazendo parte da doença. Estas perturbações podem relacionar-se com uma disfunção hipotalamo-hipofisiária, com redução dos níveis de testosterona secundária às dessaturações  arteriais nocturnas.

O desinteresse sexual , o ressonar incomodativo , a fadiga diária , a sonolencia diurna , as alterações no estado emocional e psíquico do doente são motivos suficentes de separação conjugal .

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